Esse espaço tem sido nos últimos meses muito mais um registro de tempos passados do que um blog propriamente dito. Mas é o que é, e tudo bem.
Volto agora para falar um pouco de fotografia. Havia selecionado algumas fotos aleatórias para participar da Mostra de Primavera, da Associação dos Artistas Plásticos de Piracicaba. Meio que relutantemente e sem muita vontade, mas acabei selecionando. O tema genérico era primavera, natureza.
Ao selecionar 4 ou 5 fotos, logo percebi que as fotos não falavam entre si; não havia uma conexão lógica entre elas que pudesse contar alguma história. Eram apenas imagens isoladas, ainda que bem feitas e que especialmente me agradavam.
Parei o processo e procurei achar o fio da meada. De pronto, selecionei a primeira imagem que deveria fazer parte da mostra, reproduzida abaixo. Ok, é uma imagem meio clichê. Mas talvez minha fotografia seja meio clichê, and so what?
De qualquer forma, é uma imagem bonita para o tema primavera. Flores cor de laranja em seu auge, sobre um fundo azul de um belo lago neozelandês, na Ilha Sul, com montanhas nevadas ao fundo. Essa imagem seria o fio condutor da minha narrativa, e denominei-a “Vida”, porque, claro, representa a vida em sua plenitude, com toda a beleza e harmonia. E primavera é a renovação da vida. A luz perfeita, a cor incrível e a definição das pétalas fazem a imagem.
Mas a primavera é, antes de mais nada, parte de um ciclo. Ao auge, sucede-se a decadência, inexoravelmente. Depois, tudo se renova em um novo ciclo. Na segunda imagem, procurei passar a ideia de que nada é para sempre. Embora a floração ainda domine a paisagem, mostrando o esplendor da primavera, as flores me parecem mais frágeis. Mais ainda: não estão mais sozinhas. Atrás delas, e atraindo nosso olhar, está uma velha casa rural, desfocada e escura, provavelmente abandonada. Um aviso da finitude, não só da primavera, mas de tudo o mais que nos cerca.
Retratar paisagens rurais em decadência não é algo novo. Mas acredito que essa imagem funcione bem. A composição, as tonalidades mais sombrias, a luz… e a flor em destaque, que chama claramente nossa atenção e leva nosso olhar para a casa no segundo plano. Em função dela, chamei a foto de “Resistência”. Interpretei como sendo a luta simbólica pela vida, heróica, mesmo diante de uma realidade que não se pode mudar.
Gosto ainda dessa imagem por dois outros motivos: primeiro, por ser uma paisagem meio banal, destas que podemos passar sem perceber por centenas de vezes. É muito bom quando conseguimos fazer uma boa foto de um lugar que as pessoas passam e nem notam. O segundo motivo é que a foto foi tirada em nossa velha propriedade da família, na região de Campos do Jordão, o que confere uma proximidade ainda maior entre objeto e fotógrafo.
Por fim, a terceira foto, também tirada em uma zona rural, também retratando uma construção antiga, em decadência, talvez abandonada como a anterior. Estamos agora de volta a Ilha Sul da Nova Zelândia e, nessa foto, cheia de cores e luzes, a construção é o principal motivo da composição, ocupando todo o centro e sendo emoldurada pelo verde, pelo amarelo, pelo bege, pelo cinza, pelo azul.
Sob certos aspectos, nem parece real, remetendo ao cenário de passado, de lembranças, até de sonhos. Fechei a trilogia com essa foto, chamando-a de “Lembranças”, em que o tema primavera, embora ainda presente pelas flores e cores vivas, agora perde espaço para aquilo que, em sua essência, não está mais presente. Comparando essa foto com a anterior, fica evidente que o passado agora tomou a frente, ainda que um passado recheado de lembranças alegres, pois é assim que funcionamos, filtrando aquilo que nos acontece e retendo proporcionalmente mais as coisas agradáveis.
Fim da trilogia, início da primavera, de um novo ciclo.




Marcelo!
De volta ao blog, que bom! Se o que é raro é precioso, então suas ausências valorizam ainda mais seu retorno.
Belo texto, belíssimas imagens. Dizer mais o que, se a primeira imagem mereceu um texto no meu blog, tempos atrás?
Bravo!
Beijo
Por: Nina em agosto 21, 2011
às 12:13 am
Oi Nina, é verdade, você já usou essa foto, com uma outra interpretação, o que mostra que uma imagem pode dar vazão a diferentes percepções, dependendo de quem a analisa.
Obrigado! Não sei se será uma volta propriamente dita, vamos ver…
bjo,
Marcelo
Por: marcelopcarvalho em agosto 21, 2011
às 1:49 pm
Belas fotos e excelente conexão poética entre elas. Ao meu ver não existe clichê em fotografia. Por mais que algumas imagens possam ser banais, por trás da imagem há emoções únicas que anulam qualquer banalidade.
Parabés e abraço.
Por: Marcio Lambais em agosto 21, 2011
às 12:16 pm
Obrigado, Márcio. Legal a sua reflexão sobre clichê ou não clichê. E, às vezes, as pessoas buscam sair do clichê e acabam saindo delas mesmas…
Grande abraço
Marcelo
Por: marcelopcarvalho em agosto 21, 2011
às 1:48 pm
O encontro entre uma bela paisagem e um fotógrafo sensível sempre resulta numa alegria para os olhos. Adorei a margarida em foco, destacando-se frente à casinha envelhecida!
Por: stella em agosto 21, 2011
às 8:35 pm
Obrigado Stella!
Por: marcelopcarvalho em agosto 22, 2011
às 12:32 am
oi marcelo! Vi seu post no face e vim conferir. O nome poético me chamou a atenção. Gostei das suas plaavras. E pensei aqui comigo: tem alguém (ou mais alguém) que esta sendo tocado pelos encontros de quinta feira a noite. Aqueles momentos onde tudo é muito mais do que só discutir uma tinta no papel com um significado. O curso parece que está evocando em mim, e pelo que vi, também em vc, a busca por um sentido maior da fotografia… Uma reflexão do que vemos, do que nos organizamos para, de um sentido para o olhar e uma construção.
beijos, se joga! Se ganhar o prêmio leve uma cachaça para comemorarmos! Carol.
Por: Carolina Pareto em agosto 22, 2011
às 2:29 pm
Oi Carol, obrigado pela visita e comentários! Acho que vc tem razão. O curso tem um componente psicológico forte, né…e a fotografia é a maneira de extravasar a necessidade de arte que temos em nós. Então vamos em frente, cada dia uma descoberta! bjos (a cachaça já tá reservada, com ou sem prêmio…rs)
Por: marcelopcarvalho em agosto 22, 2011
às 3:15 pm
Pessoal, enfim, saiu o resultado e a foto Lembranças levou a Medalha de Ouro!
Por: marcelopcarvalho em agosto 29, 2011
às 11:52 pm