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	<title>O que der e vier &#187; Literatura</title>
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	<description>Idéias, pensamentos e impressões, por Marcelo Pereira de Carvalho</description>
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		<title>O que der e vier &#187; Literatura</title>
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		<title>Como Shackleton contratava</title>
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		<pubDate>Sat, 08 May 2010 23:50:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>marcelopcarvalho</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O irlandês Ernest Shackleton é considerado um dos maiores líderes que já existiu, apesar de não ter conseguido conquistar quase nenhum dos objetivos a que se propôs. A sua fama mundial ocorreu após a malsucedida viagem do barco Endurance a Antártida, quando ele e sua tripulação sobreviveram durante dois anos, de 1914 a 1916, nos [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=blog.oquederevier.com&blog=5679249&post=1004&subd=marcelopcarvalho&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O irlandês <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Ernest_Shackleton">Ernest Shackleton</a> é considerado um dos maiores líderes que já existiu, apesar de não ter conseguido conquistar quase nenhum dos objetivos a que se propôs. A sua fama mundial ocorreu após a malsucedida viagem do barco <em>Endurance</em> a Antártida, quando ele e sua tripulação sobreviveram durante dois anos, de 1914 a 1916, nos confins gelados do pólo sul, quando o navio foi esmagado pelo gelo e naufragou.</p>
<p>O incrível é que todos os membros da tripulação sobreviveram, não só em boas condições físicas, mas também emocionais. Longe de casa, sob um frio intenso e a 2 mil quilômetros da civilização, a chance do grupo esmorecer ou se dividir eram significativas – quase uma certeza diante de tanto stress e desafio.</p>
<p>Mas havia Shackleton. Para ele, o cuidado com o bem-estar da equipe era essencial, exigindo em troca a lealdade e o trabalho. Essas informações estão no livro <em>S<a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=705974&amp;sid=8739129841258738995369032&amp;k5=B4D0FEB&amp;uid=">hackleton – Uma lição de coragem</a>, </em> que disseca o estilo de liderança do explorador e que estou lendo. O livro clássico sobre a expedição do Endurance é  <em><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=771891&amp;sid=8739129841258738995369032&amp;k5=3258B6C9&amp;uid=">A incrível viagem de Shackleton</a></em>, de Alfred Lansing. Um detalhe interessante é que a expedição, cujo objetivo era cruzar o continente antártico, já que o pólo já havia sido atingido por Amundsen, contava com o fotógrafo Frank Hurley, que documentou de forma brilhante a viagem que tinha tudo para ser trágica. O registro fotográfico dá alma e materializa as impressões que são passadas pelos livros. <a href="http://www.shackleton-endurance.com/images.html">Neste site</a>, há um belo registro das fotos da expedição.</p>
<div id="attachment_1006" class="wp-caption alignnone" style="width: 316px"><a href="http://marcelopcarvalho.files.wordpress.com/2010/05/captura-de-tela-2010-05-08-as-20-26-13.png"><img class="size-full wp-image-1006" title="Captura de tela 2010-05-08 às 20.26.13" src="http://marcelopcarvalho.files.wordpress.com/2010/05/captura-de-tela-2010-05-08-as-20-26-13.png?w=306&#038;h=413" alt="" width="306" height="413" /></a><p class="wp-caption-text">Shackleton</p></div>
<p>Entre os aspectos que explicam o sucesso diante de tanta adversidade está o processo de contratação de Shackleton, que era, no mínimo, pouco convencional, embora criterioso: Shackleton dava uma importância enorme para ter pessoas excepcionais em sua equipe, mesclando experiência com juventude, mas sempre tendo o caráter como qualidade eliminatória.</p>
<p>Para a expedição do <em>Endurance</em>,  ele recebeu nada menos do que 5.000 pedidos de interessados, para selecionar cerca de 30 pessoas. A pré-seleção foi feita por Frank Wild, que já havia estado com ele na expedição do Nimrod, que quase havia chegado ao pólo. Wild separou inicialmente os candidatos em “loucos”, “fora de questão” e “possíveis”. Shackleton então analisava a pilha dos possíveis e entrevistava os que achava que tinham potencial. Como ele organizava sua equipe?</p>
<ul>
<li><span style="text-decoration:underline;">Formava um núcleo de profissionais experientes</span>: eram confiáveis, faziam o trabalho pesado quando a coisa apertava e criavam uma atmosfera profissional. Shackleton buscou quem ele conhecia, além de recomendações de outros exploradores. Procurava pessoas que exerceriam uma influência benéfica sobre os mais jovens, especialmente nos momento críticos. Um dos homens nessa posição era Tom Crean, que fizera parte da expedição de Scott, salvando a vida de um tenente. Crean tivera uma carreira irregular na Marinha, com rebaixamentos por embriaguês e comportamento inadequado. Com Scott, era apenas marinheiro, mas Shackleton colocou-o como segundo oficial de náutica.</li>
<li><span style="text-decoration:underline;">Tinha um substituto confiável e leal, que partilhava de suas noções de liderança</span>.  Frank Wild era esse homem. Para Shackleton, Wild tinha tudo que precisava em um número 2: lealdade, bom humor, honradez, força e experiência. Um dos marinheiros disse sobre Wild: “é nosso segundo homem e de longe o mais popular (com exceção de nosso chefe) entre nós”.</li>
<li><span style="text-decoration:underline;">Buscava pessoas que compartilhavam de sua visão e entusiasmo pela exploração.</span> Nesse sentido, ele queria para o <em>Endurance</em> um comandante meio fanfarrão. Frank Worsley foi o selecionado – era ousado e excêntrico, meio doido até. Mas gostava de uma boa piada e de conversa, o que era importante para atravessar situações difíceis.</li>
<li><span style="text-decoration:underline;">Fazia entrevistas pouco convencionais para identificar o que queria</span>. Shackleton procurava, acima de tudo, avaliar personalidades. Mantinha conversas descontraídas, em que buscava detectar entusiasmo, otimismo e capacidade de fazer parte de uma equipe. Para um dos candidatos, Raymond Priestley, ele perguntou se sabia cantar e se saberia reconhecer ouro caso o visse. O candidato, surpreso, disse que não, mas foi contratado mesmo assim, apesar de terem diversas pessoas com qualificações maiores do que a dele.  Shackleton viu nele algo que gostava e, de fato, Priestley se revelou um dos membros mais valiosos do grupo.</li>
<li><span style="text-decoration:underline;">Buscava pessoas otimistas, que tinham maior propensão para o trabalho em equipe</span>. Um dos seus objetivos era encontrar pessoas felizes. Durante a entrevista de Hussey, ele ficou andando de um lado para o outro, parecendo não prestar muita atenção. Depois, disse: “Você serve”.  Hussey disse que o Chefe (como era conhecido) havia dito depois que o contratara porque ele parecia engraçado…De fato, mostrou-se incrivelmente engraçado, tocava banjo e foi importantíssimo para manter o moral elevado durante os piores momentos (além de ter talento, pois vinha de uma expedição ao Sudão).</li>
<li><span style="text-decoration:underline;">Contratava pessoas que realmente queriam o emprego</span>. Alguns candidatos haviam recebido um telegrama na tarde anterior, pedindo para encontrar-se com Shackleton na manhã seguinte. Dois deles não foram e, de repente, o terceiro apareceu todo molhado, dizendo que estava em outra cidade, tomara vários trens e ali estava. Foi contratado na hora.</li>
<li><span style="text-decoration:underline;">Buscava gente que trabalhava duro, independentemente da hierarquia</span>. Não havia passageiros no <em>Endurance</em>, todo mundo mais ou menos dividia as tarefas. Médicos ajudavam na cozinha, todo mundo era de utilidade pública. Não havia espaço para prima donnas. Quando podia, testava as pessoas em trabalhos árduos antes de contratar.</li>
<li><span style="text-decoration:underline;">Contratava quem tinha conhecimentos que lhe faltavam</span>, como cientistas altamente qualificados. No Endurance, tinha um grande fotógrafo (Hurley), um biólogo experiente, um físico de Cambridge, etc.</li>
<li><span style="text-decoration:underline;">Certificava-se de que todos sabiam o que deles era esperado</span> e, para isso, era muito claro na comunicação, inclusive escrita. Nunca iludia ninguém com falsas promessas, especificava as tarefas, o pagamento, etc.</li>
<li><span style="text-decoration:underline;">Equipava a equipe com o que tinha de melhor em relação a equipamentos</span>. Sabia que um equipamento ruim poderia colocar a vida das pessoas em risco. Para ele, instrumentos ordinários desperdiçavam tempo e dinheiro. Tudo no <em>Endurance</em> era do que tinha de melhor na época.</li>
</ul>
<p>Gostei bastante dessas dicas, especialmente em relação às características que valorizava nas pessoas: visão compartilhada, otimismo e entusiasmo, vontade de trabalhar, facilidade de trabalhar em equipe e conhecimento.</p>
<div id="attachment_1005" class="wp-caption alignnone" style="width: 364px"><a href="http://marcelopcarvalho.files.wordpress.com/2010/05/captura-de-tela-2010-05-08-as-20-26-42.png"><img class="size-full wp-image-1005" title="Captura de tela 2010-05-08 às 20.26.42" src="http://marcelopcarvalho.files.wordpress.com/2010/05/captura-de-tela-2010-05-08-as-20-26-42.png?w=354&#038;h=474" alt="" width="354" height="474" /></a><p class="wp-caption-text">O Endurance aprisionado no gelo</p></div>
<div id="attachment_1007" class="wp-caption alignnone" style="width: 410px"><a href="http://marcelopcarvalho.files.wordpress.com/2010/05/captura-de-tela-2010-05-08-as-20-30-14.png"><img class="size-full wp-image-1007" title="Captura de tela 2010-05-08 às 20.30.14" src="http://marcelopcarvalho.files.wordpress.com/2010/05/captura-de-tela-2010-05-08-as-20-30-14.png?w=400&#038;h=268" alt="" width="400" height="268" /></a><p class="wp-caption-text">Essa foto foi tirada por Frans Lanting, no exato local em que o grupo de 6 pessoas liderado por Shackleton saiu em busca de ajuda em um pequeno bote. No primeiro plano, a foto desse momento, tirada por Hurley.</p></div>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/marcelopcarvalho.wordpress.com/1004/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/marcelopcarvalho.wordpress.com/1004/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/marcelopcarvalho.wordpress.com/1004/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/marcelopcarvalho.wordpress.com/1004/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/marcelopcarvalho.wordpress.com/1004/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/marcelopcarvalho.wordpress.com/1004/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/marcelopcarvalho.wordpress.com/1004/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/marcelopcarvalho.wordpress.com/1004/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/marcelopcarvalho.wordpress.com/1004/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/marcelopcarvalho.wordpress.com/1004/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=blog.oquederevier.com&blog=5679249&post=1004&subd=marcelopcarvalho&ref=&feed=1" />]]></content:encoded>
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		<title>Sobre ter altas expectativas a respeito das coisas</title>
		<link>http://blog.oquederevier.com/2010/02/02/sobre-ter-altas-expectativas-a-respeito-das-coisas/</link>
		<comments>http://blog.oquederevier.com/2010/02/02/sobre-ter-altas-expectativas-a-respeito-das-coisas/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 02 Feb 2010 22:50:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>marcelopcarvalho</dc:creator>
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		<description><![CDATA[É melhor ter altas ou baixas expectativas a respeito das coisas? Esse assunto me veio à tona ultimamente em algumas situações específicas e achei que dava para escrever um post. Vou tentar. Para responder à questão, é preciso primeiro defini-la: melhor em que sentido? No que se refere aos resultados alcançados, parece lógico (e há [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=blog.oquederevier.com&blog=5679249&post=957&subd=marcelopcarvalho&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>É melhor ter altas ou baixas expectativas a respeito das coisas? Esse assunto me veio à tona ultimamente em algumas situações específicas e achei que dava para escrever um post. Vou tentar.</p>
<p>Para responder à questão, é preciso primeiro defini-la: melhor em que sentido? No que se refere aos resultados alcançados, parece lógico (e há trabalhos mostrando) que quanto maior a expectativa, melhor tende a ser o resultado final. O fato é que o mundo não te dá mais do que você pede a ele, pelo menos na maior parte das situações. Assim, quem espera muito da vida (não no sentido passivo da espera), tende a ir mais longe. “Nothing ventured, nothing gained”. And that’s it. Ao menos potencialmente.</p>
<p>Um estudo feito pelos psicólogos americanos Sydney Siegel e Lawrence Fouraker demonstrou que a expectativa elevada (ou, nesse caso, a meta) influencia o resultado. Eles dividiram voluntários em dois grupos. Em ambos foi passado que teriam de vender um certo produto e caso atingissem a meta pré-estabelecida, eles poderiam ficar com o lucro obtido e passariam a uma segunda rodada. A diferença foi que, para o primeiro grupo, foi passada uma meta de <strong>2,10 dólares</strong> enquanto que, para o segundo grupo, a meta estabelecida mais ambiciosa, <strong>6,10 dólares</strong>. Muitos vendedores dos dois grupos atingiram a meta, mas no segundo grupo o lucro médio foi de <strong>6,25 dólares</strong> enquanto que no primeiro grupo, de meta mais modesta, o lucro médio foi de apenas <strong>3,35 dólares</strong>. Nesse caso, a expectativa foi gerada externamente, mas pouco importa: resultou em desempenho superior.</p>
<p>Empresas mais ambiciosas, pessoas mais ambiciosas, tendem a ir mais longe porque se motivam a obter mais do mundo, desde que suas metas sejam realistas. A Teoria das Expectativas de Vroom sugere que a motivação, isto é, o <em>motivo para ação</em>,  depende do produto entre a Valência = vontade que alguém tem de obter algo, o que é dado pela relevância que esse algo tem para ela, e a Expectativa da se atingir esse algo. Expectativa, nesse caso, significa o quanto a pessoa acredita que de fato possa atingir esse objetivo.</p>
<p>Assim, se alguém não tem objetivo de alcançar algo (valência zero) o produto será zero e não haverá motivação. Ela não sairá do lugar. Da mesma forma, ainda que a valência seja elevada, se a expectativa de se atingir esse algo for zero, também não haverá estímulo para se mover. Exemplo: você pode querer ser campeão mundial de Fórmula 1, mas se considerar que essa meta não pode ser atingida por não ser realista, então não terá motivação para persegui-la.</p>
<p>Desta forma, pessoas com expectativas mais altas, ou metas mais elevadas, pessoais ou profissionais, se motivarão a conquistar essas metas, desde que tenham real expectativa de consegui-las. Nesse ponto, há pessoas que, pela análise convencional, estão “fora da realidade”, que acreditarão em metas que não são realistas &#8211; talvez uma forma de auto-engano &#8211; mas que terão motivação para alcançá-las. E, às vezes, conseguirão, surpreendendo a todos.</p>
<p>(Não sei porque, mas me lembrei agora daquela cena do filme <a href="http://www.meucinemabrasileiro.com/filmes/dois-filhos-de-francisco/dois-filhos-de-francisco.asp">Dois Filhos de Francisco</a>, em que o Francisco diz que queria tornar famosa a dupla formada pelos filhos [Zezé de Camargo e seu irmão que faleceu logo depois]. Ele comprou centenas de fichas telefônicas e ligou para a rádio seguidas vezes, até que a música deles foi selecionada entre as mais pedidas do dia. O resto é história, depois de muita água passada debaixo da ponte, claro&#8230;)</p>
<p>Até aí, tudo bem. Mas, voltando à pergunta original, e no aspecto pessoal, de satisfação? Será que ter expectativas elevadas, ainda que isso resulte em uma vida mais rica materialmente e mais cheia de “histórias para contar”, tornará alguém mais feliz do que aquele que se contenta com menos, seja no aspecto material, seja no aspecto pessoal?</p>
<p>Acredito que não.  Ou, pelo menos, provavelmente não. Se você esperava emagrecer 2 kg e emagreceu 4, ficará satisfeito. Mas se a expectativa era emagrecer 6&#8230;Com metas mais altas, a frustração está mais próxima e o tombo, maior. O paradoxo é que, provavelmente, aquele que quer emagrecer 6 kg, desde que seja uma meta realista, deve conseguir emagrecer mais do que aquele que tem meta de 4 kg. Assim, a expectativa alta gera resultado melhor, mas a chance de desapontamento é maior. Quanto maior o ganho potencial, maior o risco.</p>
<p>Mas e se expectativa elevada for cumprida? Terá esse indivíduo satisfação muito superior? Ainda assim, creio que aquele que tem expectativas elevadas a respeito da vida ficará em posição desfavorável no quesito satisfação. A expectativa elevada anda de mãos dadas com a necessidade contínua de querer sempre mais e melhor, empurrando a zona de satisfação sempre para frente. Nada é suficiente, nunca é suficiente.</p>
<p>Complementando o raciocínio acima, há ainda uma outra possível associação. Indivíduos com altas expectativas a respeito de tudo desconhecem que a vida não é feita de eras de felicidade, mas sim de momentos de felicidade, como disse Nietzsche. Essas pessoas talvez estejam sempre esperando o momento supremo, a pessoa perfeita, o emprego ideal – afinal esperam sempre o melhor de tudo – e sempre farão o possível para alcançá-los, para logo perceber – mais uma vez &#8211; que poderia ser melhor. Sempre poderia. Como escreveu <a href="http://www.releituras.com/vcarvalho_velhotemaI.asp">meu bisavô</a> em sua poesia mais famosa, “Velho Tema”:</p>
<p><em>Só a leve esperança, em toda a vida,<br />
Disfarça a pena de viver, mais nada;<br />
Nem é mais a existência, resumida,<br />
Que uma grande esperança malograda.</em></p>
<p><em>O eterno sonho da alma desterrada<br />
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,<br />
É uma hora feliz, sempre adiada<br />
E que não chega nunca em toda a vida.</em></p>
<p><em>Essa felicidade que supomos,<br />
Árvore milagrosa que sonhamos<br />
Toda arreada de dourados pomos,</em></p>
<p><em> </em></p>
<p><em>Existe, sim: mas nós não a alcançamos<br />
Porque está sempre apenas onde a pomos<br />
E nunca a pomos onde nós estamos.</em></p>
<p>Já que falei do filme Dois Filhos de Francisco, vou citar uma das cenas finais, em que Zezé, já rico e famoso, volta para visitar o casebre em que morava com a família, antes de tudo acontecer. Se não me falha a memória, ele diz algo como “foi a época mais feliz da minha vida”&#8230;Pelo filme, percebe-se que ele é alguém com altas expectativas, foi lá e fez, mas pelo jeito não resolveu. Parece, olhando assim, que as expectativas elevadas são uma ilusão auto-imposta não para de fato conquistar grandes coisas, mas para tapar o sol com a peneira, resolver internamente aquilo que não está e não será resolvido. Quando não se consegue lidar com o presente, depositando no futuro e em suas conquistas a suposta satisfação permanente. “The best is always to come&#8230;.”.</p>
<p>Barry Schwartz, no seu ótimo <a href="http://blog.oquederevier.com/tag/barry-schwartz/">Paradoxo da Escolha</a>, mostra que o índice de depressão e suicídio nos indivíduos maximizadores é maior do que nos demais. Indivíduos maximizadores são aqueles que só se contentam com o melhor, isto é, possuem alta expectativa a respeito de tudo. Aqui, há ainda a correlação positiva entre ter altas expectativas e assumir para si a responsabilidade pelo fracasso, o que coloca um peso ainda maior para as frustrações. O maximizador é escravo de suas próprias expectativas.</p>
<p>Triste paradoxo. É provável que grande parte das contribuições feitas à história humana tenha sido feita por indivíduos que tinham altas expectativas. Afinal, não é fácil se destacar, criar algo novo, fazer a diferença. Citando a frase de Bernard Shaw (de novo estou citando Shaw!), “<em>há dois tipos de pessoas, aquelas que se adaptam ao mundo e aquelas que tentam adaptar o mundo a elas. Todo progresso vem necessariamente do segundo tipo”</em>.  Eles foram lá, e fizeram, contra tudo e contra todos.  E mudaram a ordem das coisas.</p>
<p>Mas talvez, dentro de si, aquele incômodo sempre continuou, de um lado, impulsionando-os a fazer mais e mais, de outra impedindo-os de usufruir daquilo que conquistaram. O legado que deixaram ao mundo é maior do que o que construíram para si mesmos.</p>
<p>E, claro, para cada um que fez história, quantos potenciais gênios, empresários, educadores revolucionários, se perderam e não foram nem uma sombra daquilo que poderiam ter sido, justamente pela frustação paralisante que se instalou ao perceberem o quão longe estavam de suas elevadas aspirações?</p>
<p>Nesse sentido, invejo aquele que se contenta com pouco, que se surpreende positivamente com cada mínima conquista, que quase nada espera a ponto de quase tudo servir. Esse, certamente, é mais feliz. Olhando por esse lado, no entanto, a felicidade me parece algo um tanto medíocre, uma monotonia pouco digna para justificar, de fato, o efêmero momento que representa nossa passagem por esse mundo.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/marcelopcarvalho.wordpress.com/957/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/marcelopcarvalho.wordpress.com/957/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/marcelopcarvalho.wordpress.com/957/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/marcelopcarvalho.wordpress.com/957/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/marcelopcarvalho.wordpress.com/957/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/marcelopcarvalho.wordpress.com/957/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/marcelopcarvalho.wordpress.com/957/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/marcelopcarvalho.wordpress.com/957/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/marcelopcarvalho.wordpress.com/957/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/marcelopcarvalho.wordpress.com/957/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=blog.oquederevier.com&blog=5679249&post=957&subd=marcelopcarvalho&ref=&feed=1" />]]></content:encoded>
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		<title>2009: Balanço Final</title>
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		<pubDate>Thu, 24 Dec 2009 13:26:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>marcelopcarvalho</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arte]]></category>
		<category><![CDATA[Empreendedorismo]]></category>
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		<category><![CDATA[fotografia]]></category>
		<category><![CDATA[Drummond]]></category>
		<category><![CDATA[Promessas de ano novo]]></category>

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		<description><![CDATA[Constato constrangido e meio perplexo: nesse ano que passou eu não cumpri a maior parte das metas que havia traçado ao final de 2008. Algumas não consegui cumprir, outras não quis; mudaram as premissas, o que está ok, afinal não me parece nada bom ter sua vida programada como um jogo de computador, imune a [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=blog.oquederevier.com&blog=5679249&post=888&subd=marcelopcarvalho&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Constato constrangido e meio perplexo: nesse ano que passou eu não cumpri a maior parte das metas que havia traçado ao final de 2008. Algumas não consegui cumprir, outras não quis; mudaram as premissas, o que está ok, afinal não me parece nada bom ter sua vida programada como um jogo de computador, imune a surpresas que são sempre o tempero da vida, sejam boas ou más.</p>
<p>Mas não estive parado, e só se esbarra em algo novo quando se está em movimento. Aliás, me movimentei: dentro daquilo que pude contabilizar, foram 25 viagens aéreas dentro do Brasil e 5 no exterior, quase tudo a trabalho, mas nunca se está 100% a trabalho, não?: lá fora, fui para Austrália, Espanha, Chile, Alemanha  e Estados Unidos. Gosto de viajar e acho que cada vez mais as viagens farão parte do que faço. A vida acontece fora do meu escritório, é fora que tenho a inspiração e obtenho a renovação e a energia para enfrentar o dia-a-dia e para me reinventar.</p>
<p>O que mais fiz em 2009?</p>
<p>Passei a levar mais a sério o hobby da fotografia, fazendo dois cursos, lendo a respeito, praticando. É uma atividade da qual extraio grande prazer. Pode parecer idiota, mas o efeito que uma foto bem tirada gera, ou um elogio a ela feito por outras pessoas, tem maior impacto em mim hoje do que um trabalho bem feito ou um elogio ao trabalho bem feito. Talvez por já ser de certa forma reconhecido pelo que faço, e a fotografia é um desafio novo. Ainda não sei.</p>
<p>(Tenho certeza que a demanda por fotografia vai aumentar muito no mundo: todo mundo gosta é a única forma de arte que você não precisa ter uma habilidade específica e muito treino até produzir  algo razoável – a fotografia vai ser o futebol das artes, acredite).</p>
<p>Trabalhei menos, mas de forma mais inteligente e sem deixar que coisas pequenas adquirissem uma proporção maior do que representavam. Depois de uns coices da vida, você aprende a relativizar os problemas, fica mais humilde também. Os resultados vieram, não só por isso, claro. Com ou sem crise, foi nosso melhor ano e de certa forma é uma vitória perceber que uma fase de ajustes difíceis na vida pessoal não atrapalhou significativamente a vida profissional. E, mais importante, chego ao final do ano com novos projetos e ideias.</p>
<p>Conheci pessoas novas, menos talvez do que talvez devesse conhecer, mas cada um de nós tem seu ritmo e suas premissas, e sair totalmente deles nem sempre é o melhor caminho. Reforcei laços profissionais, de amizade e familiares, talvez menos do que devesse, mas sei que fui na direção certa; fiz uma viagem com três velhos amigos da época da faculdade, coisa que pouca gente pode fazer ou, mesmo que possa, não faz.</p>
<p>Aliás, se há uma sensação que me acompanha nesse final de ano, talvez construída ao longo de um ano de certa forma introspectivo, de pausa para balanço, é que podemos fazer bem mais do que efetivamente fazemos, seja pessoalmente, socialmente, profissionalmente. É fácil nos acomodarmos, envelhecermos o espírito. O único medo que realmente tenho é o da acomodação, que é uma espécie de jogar de toalhas quando a luta nem começou, ou está apenas em seu início. Quantas coisas estão ao nosso alcance e não fazemos, procrastinamos, acordamos mais tarde, deixamos para amanhã ou depois de amanhã, ou apenas não temos e nunca vamos ter a energia para nos movimentarmos?</p>
<p>Não sei quais são as metas que terei para 2010. Só sei que terei uma regra: manter a peteca no alto, manter as exigências em alto grau, mas no sentido saudável, e fazer tudo aquilo que sei que posso e quero fazer.  Vejo à minha frente uma folha de papel a ser desenhada, a meu lado as ferramentas que preciso e constato que tenho as habilidades e a disposição para preenchê-la.</p>
<p>Obrigado a todos que frequentaram esse espaço em 2009; estaremos juntos em 2010. Obrigado aos que tiveram paciência comigo, os que acreditaram em mim e me incentivaram. Obrigado a todos que cruzaram meu caminho e deixaram, de uma forma ou de outra, sua contribuição.</p>
<p>Antes de terminar, uma menção especial ao Schummacher, 40 anos, e que volta a Fórmula 1 em 2010 competindo de igual para igual com os garotos. Como em 2010 também faço 40 (apesar de me sentir com 20), torço pelo sucesso dele, que mostra que mais do que idade, o que conta mesmo é a vontade e a cabeça. Sucesso pra nós em 2010, Schummacher!</p>
<p>Frase final do poema Receita de Ano Novo,  do Drummond: “É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre.” Bela frase, vamos pensar nela; vale mais do que mil promessas e metas que ficarão nas gavetas.</p>
<p>PS: “When you make a difference, you also make a connection”. Essa frase de Seth Godin está no e-book gratuito que ele produziu junto com mais de setenta “grandes pensadores”, como ele diz, a respeito de temas importantes para pensarmos para 2010. <a href="http://sethgodin.typepad.com/seths_blog/2009/12/what-matters-now-get-the-free-ebook.html">Faça o download aqui</a>, vale a pena.</p>
<p><strong>Receita de ano novo &#8211; Carlos Drummond de Andrade</strong></p>
<p><em>Para você ganhar belíssimo Ano Novo<br />
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,<br />
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido<br />
(mal vivido talvez ou sem sentido)<br />
para você ganhar um ano<br />
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,<br />
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;<br />
novo<br />
até no coração das coisas menos percebidas<br />
(a começar pelo seu interior)<br />
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,<br />
mas com ele se come, se passeia,<br />
se ama, se compreende, se trabalha,<br />
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,<br />
não precisa expedir nem receber mensagens<br />
(planta recebe mensagens?<br />
passa telegramas?)</em></p>
<p><em><br />
Não precisa<br />
fazer lista de boas intenções<br />
para arquivá-las na gaveta.<br />
Não precisa chorar arrependido<br />
pelas besteiras consumidas<br />
nem parvamente acreditar<br />
que por decreto de esperança<br />
a partir de janeiro as coisas mudem<br />
e seja tudo claridade, recompensa,<br />
justiça entre os homens e as nações,<br />
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,<br />
direitos respeitados, começando<br />
pelo direito augusto de viver.</em></p>
<p><em><br />
Para ganhar um Ano Novo<br />
que mereça este nome,<br />
você, meu caro, tem de merecê-lo,<br />
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,<br />
mas tente, experimente, consciente.<br />
É dentro de você que o Ano Novo<br />
cochila e espera desde sempre.</em></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/marcelopcarvalho.wordpress.com/888/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/marcelopcarvalho.wordpress.com/888/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/marcelopcarvalho.wordpress.com/888/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/marcelopcarvalho.wordpress.com/888/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/marcelopcarvalho.wordpress.com/888/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/marcelopcarvalho.wordpress.com/888/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/marcelopcarvalho.wordpress.com/888/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/marcelopcarvalho.wordpress.com/888/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/marcelopcarvalho.wordpress.com/888/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/marcelopcarvalho.wordpress.com/888/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=blog.oquederevier.com&blog=5679249&post=888&subd=marcelopcarvalho&ref=&feed=1" />]]></content:encoded>
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		<title>Uma história incrível e real</title>
		<link>http://blog.oquederevier.com/2009/12/09/uma-historia-incrivel-e-real/</link>
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		<pubDate>Wed, 09 Dec 2009 22:51:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>marcelopcarvalho</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Pessoas]]></category>
		<category><![CDATA[acaso]]></category>
		<category><![CDATA[coincidência]]></category>
		<category><![CDATA[contos]]></category>
		<category><![CDATA[Paul Auster]]></category>

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		<description><![CDATA[Li agora O Caderno Vermelho (por influência da Márcia Benetti), livrinho que Paul Auster escreveu em 2000, relatando episódios em que o acaso e a coincidência influenciaram e, em alguns casos, até alteraram radicalmente a vida de seus protagonistas. São histórias reais, vividas por Auster, sua família e conhecidos. Algumas são fatos banais do cotidiano, [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=blog.oquederevier.com&blog=5679249&post=863&subd=marcelopcarvalho&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Li agora O Caderno Vermelho (por influência da <a href="http://marciabenetti.blogspot.com/">Márcia Benetti</a>), livrinho que Paul Auster escreveu em 2000, relatando episódios em que o acaso e a coincidência influenciaram e, em alguns casos, até alteraram radicalmente a vida de seus protagonistas. São histórias reais, vividas por Auster, sua família e conhecidos. Algumas são fatos banais do cotidiano, mas que, por alguma razão pessoal, deixaram impressões duradouras e marcantes em suas trajetórias a partir dali. Com base nele, resolvi relatar aqui um fato ocorrido com minha irmã, meio no estilo Auster. Todas as informações são reais, tais como ocorreram.</em></p>
<p>Minha irmã havia se mudado com a família para uma nova casa. Após morar em apartamento durante vários anos, surgiu uma ótima oportunidade justamente no momento em que o proprietário do apartamento em que morava solicitava o imóvel.</p>
<p>A oportunidade era uma casa antiga mas confortável, em um local aprazível do Jardim Paulistano, perto da Rebouças. A casa era da família do seu marido e estava locada há vários anos. Talvez tenha passado por uma ou duas reformas (não sei ao certo precisar) e, com uma última interferência feita pelo meu pai, ganhou um ar de modernidade e de conforto que normalmente as casas antigas carecem.</p>
<p>Uns dois meses depois, minha mãe, junto com a neta – filha da minha irmã &#8211; resolveu fazer uma ordem em sua casa, esvaziando armários que há muito não eram mexidos. Era um daqueles momentos em que se decide rever o passado e se livrar daquilo que, deixara de fazer sentido, mas que permanecera armazenado simplesmente por mero esquecimento, esperando o dia do descarte.</p>
<p>Entre os itens achados, alguns eram jogados no lixo, outros guardados novamente (por alguma razão, ainda faziam sentido de ser, pelo menos até a próxima faxina) e outros eram dados a seus proprietários – no caso eu, minha irmã e meu irmão – que tinham a incumbência de decidir pelo seu destino.</p>
<p>Nessa arrumação, minha sobrinha achou um diário de sua mãe, de quando ela tinha provavelmente uns dez anos (ela deve saber a idade exata) e levou para casa para mostrar à mãe. Dentro dele, além das anotações referentes a impressões do dia-a-dia feitas por uma garotinha de dez anos, havia adesivos, papéis de carta colados e recados de amigas, que tomavam emprestado o diário para devolver no dia seguinte, com uma mensagem prometendo amizade eterna ou algo assim.</p>
<p>Uma dessas mensagens era de uma amiga a qual não via havia quase vinte anos, ou seja, seu último contato havia se dado pouco após a redação desta nota. Era a mensagem mais pessoal de todas e, ao final, uma frase pouco comum para uma pequena menina, seguida de um endereço: “Se precisar de mim, você sabe onde me encontrar: Rua tal, número tal”. Era o único endereço escrito em todo o diário &#8211; minha irmã teve o cuidado de checar depois.</p>
<p>Por mais incrível que pareça, a “Rua tal, número tal”, era a casa para a qual minha irmã havia se mudado recentemente. Em função das reformas e do tempo passado desde então, ela não se lembrara, mas diante dessa revelação, aos poucos a memória foi sendo resgatada. Ela lembrou que, na velha garagem transformada em quarto de brinquedos onde hoje seus filhos brincam, ela havia brincado com sua amiga quando tinha quase a mesma idade de seus filhos. Mais ainda: ela lia essa mensagem muito provavelmente no mesmo local onde havia sido escrita, já que a amiga tomou emprestado o diário e levado para casa, como era de praxe.</p>
<p>Em sua infância, ela freqüentara a casa para a qual, sem saber, tinha se mudado recentemente (e que vinha a ser propriedade da família de seu futuro marido). Ainda que a origem social comum a ambas restrinja a ocorrência dessa possibilidade a alguns bairros específicos da metrópole de 10 milhões de pessoas, o episódio não deixa de ser absolutamente improvável.</p>
<p>Mas a história não termina aí. Na verdade, o mais absurdo veio a acontecer após essa descoberta. Um tio nosso, ao saber do estranho episódio e sendo afeito a temas espirituais, disse que nada disso era simples coincidência: que ela procurasse a amiga, que com certeza estava precisando muito de sua ajuda.</p>
<p>Minha irmã não deu muita importância ao fato até que, cerca de duas semanas após a descoberta e a conversa com o tio, encontrou sua cunhada, que disse ter conhecido recentemente uma menina que havia morado naquela casa. Como foi feito o contato entre ambas e como o assunto entrou na conversa das duas é algo que não me lembro ou não me foi dito. Só sei que a amiga sabia que meu cunhado morava na mesma casa que ela havia morado, mas não que minha irmã morava lá e que era casada com ele.</p>
<p>Surpresa ainda com mais essa coincidência, minha irmã perguntou como a amiga de infância  estava, já que não a vira durante todo esse tempo, nem tivera notícias da outra. Nada bem, foi a resposta de sua cunhada. Há cerca de duas semanas, ela tentou se matar.</p>
<p>Sem compreender direito o significado de tudo aquilo, minha irmã se recordou que, há exatas duas semanas estava lendo em sua nova casa seu antigo diário e, nele, a mensagem escrita por sua velha colega de escola, mais de vinte anos atrás.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/marcelopcarvalho.wordpress.com/863/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/marcelopcarvalho.wordpress.com/863/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/marcelopcarvalho.wordpress.com/863/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/marcelopcarvalho.wordpress.com/863/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/marcelopcarvalho.wordpress.com/863/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/marcelopcarvalho.wordpress.com/863/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/marcelopcarvalho.wordpress.com/863/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/marcelopcarvalho.wordpress.com/863/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/marcelopcarvalho.wordpress.com/863/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/marcelopcarvalho.wordpress.com/863/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=blog.oquederevier.com&blog=5679249&post=863&subd=marcelopcarvalho&ref=&feed=1" />]]></content:encoded>
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		<title>Um ano de “O que der e vier”</title>
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		<pubDate>Mon, 30 Nov 2009 19:46:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>marcelopcarvalho</dc:creator>
				<category><![CDATA[Comunicação]]></category>
		<category><![CDATA[Filosofia]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[blog]]></category>
		<category><![CDATA[Marcelo Pereira de Carvalho]]></category>

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		<description><![CDATA[Hoje, o blog fez um ano. Em 30/11/08, escrevi “Nothing ventured, nothing gained”, o primeiro de 132 posts, o que dá uma média de um a cada 3 dias, ou um pouco menos. É como um filho: você bota no mundo, cria expectativas, até tentar moldar, mas ele adquire vida própria e vira alguma coisa [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=blog.oquederevier.com&blog=5679249&post=846&subd=marcelopcarvalho&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Hoje, o blog fez um ano. Em 30/11/08, escrevi “<a href="http://wp.me/pnPqN-3">Nothing ventured, nothing gained</a>”, o primeiro de 132 posts, o que dá uma média de um a cada 3 dias, ou um pouco menos.</p>
<p>É como um filho: você bota no mundo, cria expectativas, até tentar moldar, mas ele adquire vida própria e vira alguma coisa diferente do que você imaginava.</p>
<p>No caso do blog, isso é até natural (do filho também, mas obviamente por outras razões). Afinal, o blog é um reflexo de seu autor, e seu autor não é o mesmo ao longo do tempo. Muda e, com ele, muda também o blog. Um paradoxo: o blog cria vida própria em certo sentido, mas estará sempre subjugado a seu criador. Talvez sejamos nós mesmos que criamos vida própria, diferente do que achamos que somos.</p>
<p>Gostaria de presentear esse companheiro de horas críticas, que sempre aceitou tudo, sem reclamar com um momento mais criativo de minha parte. Nesses últimos meses, como já escrevi recentemente, a inspiração me tem faltado, junto com outras coisas mais, como tempo e dedicação. E talvez certa angústia, que sempre é uma artista poderosa. Mas essas coisas não escolhem hora para aparecer e voltar a sumir sem aviso prévio. Paciência, ele há de se acostumar, caso sobreviva por muito mais tempo.</p>
<p>Nesse período, ele me proporcionou bons momentos. Escrevi algumas coisas das quais gostei; mas nunca revisitei os textos, principalmente os mais pessoais, talvez por medo do que poderia vir a encontrar, medo de ter exagerado na exposição pessoal que um exercício dessa natureza sempre exige, medo de ver como eu era e o que pensava em determinados momentos. É até possível que me surpreendesse positivamente.</p>
<p>Como um filho, o parto não foi fácil; como o parto, teve um bocado de dor em sua origem, até que seu autor, meio que aos trancos e barrancos, fosse se adaptando aos novos tempos.</p>
<p>No primeiro texto que escrevi fui sincero ao avisar que seria um projeto pessoal, de mim para mim mesmo, o que em parte foi mesmo verdade, mas claro só em parte. Nunca tive o interesse de ter milhares de acessos, a responsabilidade seria muito grande e a exposição, idem. Quem fosse para acessar, acabaria acessando. Os que gostassem, voltariam.</p>
<p>Mas acho que, nesse projeto pessoal, ao longo do trajeto, sobrou algo para outras pessoas, que buscaram algum conhecimento, ideias, apoio e talvez até entretenimento em um ou outro post. Algumas dessas pessoas eu nem conhecia – em especial a <a href="http://meninadecachos.blogspot.com/">Ana</a>, a <a href="http://marciabenetti.blogspot.com/">Márcia</a>, e o <a href="http://rodolfo.typepad.com/">Rodolfo</a>, todos blogueiros e que, graças a esse negócio de tecnologia que eu meti  o pau alguns posts atrás, pude conhecer. E há, claro, muitos outros que já conhecia, ou que conheci pessoalmente nesse ano, e que também gastaram parte do seu tempo livre visitando meus textos.</p>
<p>O blog inicia seu segundo ano com expectativas, mas sem ao certo saber como vai se desenvolver, que rumos tomará, como servirá ao seu autor. A incerteza, afinal, já nasceu com ele, pelo próprio título. Seja para exposição de ideias quaisquer; seja para discorrer sobre gestão e empreendedorismo; seja para comentar fatos do dia-a-dia, filmes, livros,  música, vinhos e comida;  seja para comentar e publicar fotografias, o hobby que finalmente resolvi encarar; seja para dividir com os leitores minhas experiências de viagem (nos últimos 2 anos, foram 10 viagens internacionais!!); seja para dar vazão a questões mais pessoais que precisam ganhar o papel para, quem sabe, serem melhor compreendidas. O que der e vier está aí para tudo isso.</p>
<p>Anais Nin, que gosto de citar e ainda vou ler, disse “escrevo para um mundo onde se possa viver”. Não tenho essa pretensão; escrevo, no máximo, para um mundo onde eu possa viver. Já está bom demais, não?</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/marcelopcarvalho.wordpress.com/846/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/marcelopcarvalho.wordpress.com/846/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/marcelopcarvalho.wordpress.com/846/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/marcelopcarvalho.wordpress.com/846/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/marcelopcarvalho.wordpress.com/846/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/marcelopcarvalho.wordpress.com/846/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/marcelopcarvalho.wordpress.com/846/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/marcelopcarvalho.wordpress.com/846/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/marcelopcarvalho.wordpress.com/846/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/marcelopcarvalho.wordpress.com/846/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=blog.oquederevier.com&blog=5679249&post=846&subd=marcelopcarvalho&ref=&feed=1" />]]></content:encoded>
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		<title>Vácuo mental</title>
		<link>http://blog.oquederevier.com/2009/11/18/vacuo-mental/</link>
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		<pubDate>Wed, 18 Nov 2009 20:15:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>marcelopcarvalho</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[inspiração]]></category>
		<category><![CDATA[processo criativo]]></category>

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		<description><![CDATA[Tem sido difícil escrever. Claro que a falta de tempo e as viagens constantes têm sido um complicador. Estou agora no aeroporto de Confins, esperando para embarcar para Campinas as 22 horas. Voei na quarta, na quinta, na sexta, no sábado, no domingo e, espero, hoje, segunda (escrevi segunda, mas só agora publico…). Mas esse [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=blog.oquederevier.com&blog=5679249&post=837&subd=marcelopcarvalho&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Tem sido difícil escrever. Claro que a falta de tempo e as viagens constantes têm sido um complicador. Estou agora no aeroporto de Confins, esperando para embarcar para Campinas as 22 horas. Voei na quarta, na quinta, na sexta, no sábado, no domingo e, espero, hoje, segunda (escrevi segunda, mas só agora publico…).</p>
<p>Mas esse não é o único aspecto. Não consigo produzir com a frequência que deveria ou que gostaria. Há momentos em que não consigo materializar nenhuma ideia digna de nota. Tudo o que consigo é reunir alguns fragmentos desconexos sobre determinados assuntos, que logo se mostram insuficientes para permitir-me qualquer análise mais consistente. Também, me vejo com certa preguiça de explorá-los mais a fundo.  Nessas horas, penso que talvez seria melhor parar o blog, definitivamente ou por um tempo. Claro que não vou. Acho que não vou.</p>
<p>Vejo-me também sem certezas absolutas, necessárias para uma argumentação que possa convencer alguém de alguma coisa qualquer. É como se, de repente, minhas opiniões e verdades sobre todo e qualquer assunto, simplesmente sumissem. O que penso eu de tal coisa? Sei lá, e talvez seja irrelevante mesmo. Se consigo tecer uma argumentação lógica, logo constato que não vale a pena defendê-la: os textos soam ridículos, como esse que escrevo enquanto espero o embarque. Não sei como faz alguém que precisa, por contrato, escrever toda semana, ou todo dia!</p>
<p>O fato é que, nesses últimos tempos, sinto-me em uma espécie de limbo intelectual. Nesses períodos, fico inundado de pseudo-ideias que não avançam e, de repente, as coisas voltam a fazer sentido, tudo se encaixa e fica mais claro. O dia fica curto, o stress positivo aumenta, as possibilidades são infinitas. Se for honesto comigo mesmo, concluirei que funciono desta forma: alterno períodos de grande atividade mental e maior criatividade, com outros marcados por pausas para balanço, onde empurro com a barriga e faço somente o que preciso fazer (mas disfarço bem).</p>
<p>Não sei se é bom ou ruim ser assim. Para manter um blog, é ruim. Até poderia escrever qualquer coisa, mas a auto-censura não deixa.</p>
<p>Claro que tem mais coisa aí. A angústia é fonte poderosa de inspiração. Se não há angústia, falta assunto e, ao mesmo,  procura-se menor exposição, afinal não há nada incomodando lá dentro e volta-se a um estágio de maior auto-preservação. Nesse sentido, talvez isso seja bom: tirando a inspiração para as artes, não sei qual outro uso pode-se fazer dela.</p>
<p>Anunciaram o embarque, de forma que sou forçado a terminar o post, o que é oportuno, pois não sabia como finalizá-lo naturalmente, o que é natural, afinal trata-se de um texto sobre a falta de assunto, ligando nada a coisa nenhuma, sem uma argumentação digna&#8230;mas, ainda assim, um post. Comemorarei!!</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/marcelopcarvalho.wordpress.com/837/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/marcelopcarvalho.wordpress.com/837/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/marcelopcarvalho.wordpress.com/837/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/marcelopcarvalho.wordpress.com/837/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/marcelopcarvalho.wordpress.com/837/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/marcelopcarvalho.wordpress.com/837/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/marcelopcarvalho.wordpress.com/837/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/marcelopcarvalho.wordpress.com/837/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/marcelopcarvalho.wordpress.com/837/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/marcelopcarvalho.wordpress.com/837/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=blog.oquederevier.com&blog=5679249&post=837&subd=marcelopcarvalho&ref=&feed=1" />]]></content:encoded>
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		<title>O que li recentemente; o que gostei e o que não gostei</title>
		<link>http://blog.oquederevier.com/2009/09/14/o-que-li-recentemente-o-que-gostei-e-o-que-nao-gostei/</link>
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		<pubDate>Mon, 14 Sep 2009 01:16:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>marcelopcarvalho</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Chico Buarque]]></category>
		<category><![CDATA[David Gilmour]]></category>
		<category><![CDATA[Equador]]></category>
		<category><![CDATA[Fatal]]></category>
		<category><![CDATA[J.D. Salinger]]></category>
		<category><![CDATA[Júlio Cortázar]]></category>
		<category><![CDATA[John Le Carré]]></category>
		<category><![CDATA[Mário Vargas Llosa]]></category>
		<category><![CDATA[Miguel Sousa Tavares]]></category>
		<category><![CDATA[Paul Auster]]></category>
		<category><![CDATA[Philip Roth]]></category>

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		<description><![CDATA[Tenho lido bem menos do que gostaria, acho que como quase todo mundo que trabalha, tem família, internet, etc. para ocupar o tempo. De qualquer forma, consegui ler alguma coisa nesses meses que não fosse ligado exclusivamente a trabalho. Abaixo, uma pequena lista, não exclusiva, mas representativa. Não está ordenada por nenhum critério específico. Philip [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=blog.oquederevier.com&blog=5679249&post=768&subd=marcelopcarvalho&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Tenho lido bem menos do que gostaria, acho que como quase todo mundo que trabalha, tem família, internet, etc. para ocupar o tempo.</p>
<p>De qualquer forma, consegui ler alguma coisa nesses meses que não fosse ligado exclusivamente a trabalho. Abaixo, uma pequena lista, não exclusiva, mas representativa. Não está ordenada por nenhum critério específico.</p>
<p><strong>Philip Roth – Fantasma Sai de Cena –</strong> O que falar de quem ganhou um Pulitzer, a National Medal of Arts, a Gold Medal for Fiction da American Academy of Arts and Letters, 2 vezes o National Book Award e o National Book Critics Circle Award, 3 vezes o PEN/Faulkner Award, entre outros prêmios? Nada, apenas que escreveu mais um grande livro. Roth é mesmo um monstro da literatura atual.</p>
<p><strong>Philip Roth (de novo) – O Animal Agonizante –</strong> Perturbador. Trata, como Fantasma Sai de Cena, da delicada relação que temos com o envelhecimento, porém aqui sob a ótica sexual mais explícita (e como). O filme Fatal, com a Penélope Cruz estonteante, foi feito com base nele, e é bom, exceto pelo final, que foi alterado de uma maneira grotesca. O livro tem o final mais marcante que já li – e confesso que me foi útil em um momento crítico e difícil. Sempre lembrava da frase final&#8230;thanks Roth!!!</p>
<p><strong>Chico Buarque – Leite Derramado –</strong> Esperava muito desse livro, dado o frisson e as várias críticas favoráveis. De forma até meio envergonhada, digo que não achei nada demais. Até &#8211; confesso &#8211; quase não gostei. Ok, ele tem um jeito próprio de escrever (que eu particularmente não aprecio tanto assim), mas so what?  Não dá pra comparar com Paul Auster ou Philip Roth, como alguns mais ufanistas querem. Achei pretensioso. Prefiro o compositor.</p>
<p><strong>O Clube do Filme – David Gilmour –</strong> Taí, um livro despretensioso e muito bom, talvez por isso mesmo. Um pai separado e fracassado profissionalmente se depara com o fato de seu filho adolescente querer largar a escola. Ele aceita, desde que assistissem juntos um filme por semana – essa seria a sua educação. A história é real e o livro é comovente. Parece que hoje ambos – pai e filho &#8211; estão bem na foto. Vale a pena ler.</p>
<p><strong>Equador – Miguel Sousa Tavares –</strong> Outro livro que é obrigatório não adorar e eu, confesso, achei que se perdeu a partir de certo momento. O autor português tem uma bela história nas mãos e é ótimo em contextualizar historicamente o livro, mas achei o final previsível. Fiquei com a impressão que ele ficou refém do enredo que criou e não conseguiu finalizar o livro da maneira que deveria. As últimas 100 páginas parecem escritas pela Glória Perez. Depois que fiquei sabendo que o cara é arrogante, então&#8230;</p>
<p><strong>Todos os Fogos o Fogo – Júlio Cortázar –</strong> Uma coletânea de 8 contos que são verdadeiras obras-primas desse argentino que foi um dos maiores contistas de sua época. Simplesmente essencial.</p>
<p><strong>Nove Estórias </strong>– <strong>J.D. Salinger – </strong>Esse é dos antigos.  Não é uma leitura fácil. Nada é direto, o leitor que imagine ou interprete. É seco e bruto. Melancólico. Mas sem dúvida um grande momento do autor de Um Apanhador no Campo de Centeio.</p>
<p><strong>Ensaio Sobre a Cegueira – José Saramago –</strong> Uma verdadeira alucinação em alta velocidade, economizando pontuação e usando parágrafos longos, no melhor estilo do Saramago. Ok, você viu o filme. Leia o livro.</p>
<p><strong>Homem no Escuro  &#8211; Paul Auster –</strong> Eu diria que Auster está entre meus escritores favoritos. Mas essa é, em minha opinião, uma obra menor do autor. Gostei mais dos outros e, não sei explicar porque, mas Desvarios no Brooklin é a que mais me marcou. Li recentemente Timbuktu, que vai muito bem até certo ponto, uma estória incrível, mas no terço final perde o fio da meada. Mas calma lá, Auster é Auster, vale de qualquer forma.</p>
<p><strong>Travessuras da Menina Má – Mário Vargas Llosa -</strong>  Um livro realmente maravilhoso, e atemorizante se você se vê na figura do protagonista. Foi-me também muito útil&#8230;</p>
<p><strong>O Canto da Missão – John Le Carré – </strong>Não dá para negar que ele sabe escrever uma estória envolvente. Foi o primeiro livro dele que li. Bem, gostei&#8230;mas não achei aquilo tudo não! Parece que o filme O Intérprete foi feito com base nele. Ou não. Sei lá.</p>
<p>Tem outros na lista, mas esses são os que me lembro mais assim, de pronto. Comentários?</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/marcelopcarvalho.wordpress.com/768/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/marcelopcarvalho.wordpress.com/768/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/marcelopcarvalho.wordpress.com/768/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/marcelopcarvalho.wordpress.com/768/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/marcelopcarvalho.wordpress.com/768/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/marcelopcarvalho.wordpress.com/768/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/marcelopcarvalho.wordpress.com/768/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/marcelopcarvalho.wordpress.com/768/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/marcelopcarvalho.wordpress.com/768/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/marcelopcarvalho.wordpress.com/768/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=blog.oquederevier.com&blog=5679249&post=768&subd=marcelopcarvalho&ref=&feed=1" />]]></content:encoded>
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		<title>Era uma vez um tempo que um dia ia voltar</title>
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		<pubDate>Wed, 17 Jun 2009 01:50:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>marcelopcarvalho</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Pessoas]]></category>
		<category><![CDATA[Viagens]]></category>
		<category><![CDATA[Campos do Jordão]]></category>
		<category><![CDATA[Pedra do Baú]]></category>
		<category><![CDATA[represa São Bernardo]]></category>
		<category><![CDATA[São Bento do Sapucaí]]></category>
		<category><![CDATA[Serra da Mantiqueira]]></category>

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		<description><![CDATA[Li essa frase genial em uma crônica da Adriana Falcão, e fiquei com ela na cabeça; quem sabe um dia conseguiria usar em um contexto adequado. Nesse feriado, Campos do Jordão colapsou, com hordas de paulistanos que subiram a serra com o intuito de inaugurar oficialmente a temporada de inverno. Eu não tenho nada com [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=blog.oquederevier.com&blog=5679249&post=662&subd=marcelopcarvalho&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Li essa frase genial em uma crônica da Adriana Falcão, e fiquei com ela na cabeça; quem sabe um dia conseguiria usar em um contexto adequado.</p>
<p>Nesse feriado, Campos do Jordão colapsou, com hordas de paulistanos que subiram a serra com o intuito de inaugurar oficialmente a temporada de inverno. Eu não tenho nada com isso, ficamos no meio do mato, a uns 20 km da cidade, sendo os últimos 6 ou 7 km percorridos em uma estrada de terra que toda vez me traz a certeza de que vou comprar um 4&#215;4 assim que chegar em casa de novo.</p>
<p>Apesar de não ficar na cidade, tenho que passar por ela. Pior: tenho que voltar pela Rodovia Floriano Rodrigues Pinheiro, junto com as hordas, pegar a Carvalho Pinto, e só então escapar pela Dom Pedro.</p>
<p>No domingo, saí da fazenda (hoje não é mais fazenda, no máximo um sítio, mas chamamos de fazenda talvez por questões nostálgicas) às 11, em uma esperança inútil de evitar o trânsito da volta. Só em Campos, foram 40 minutos para percorrer uns 3 ou 4 km, até chegar ao portal. Olhei adiante, a rodovia lotada, os carros imóveis.</p>
<p>Devo admitir que tenho algum problema acima do normal com o trânsito. Quando me dei conta da situação em que estava, demorei 3 segundos para dar meia-volta e pegar a direção contrária, sob o olhar incrédulo da manada que se preparava para descer a serra.</p>
<p>Minha primeira ideia foi ir por São Bento do Sapucaí, Paraisópolis, Cambuí, pegar a Fernão Dias e então cair na Dom Pedro, lá em Atibaia. Eu sei, demoraria umas 2 horas a mais, mas eu disse que tenho uma fobia de ficar parado sem ir a lugar algum, enquanto o mundo anda do lado de fora. E mais: fica uma sensação de impotência, de falência completa do sistema (..rs) você ter um carro que pode ir a 150 km por hora e andar a vinte.</p>
<p>Peguei então a Estrada de Rodagem Monteiro Lobato, a SP-50. Simpatizei logo com o nome e o número. Lembrei-me então que aquela era a estrada de acesso a Campos há uns 30 anos atrás, antes da Floriano trazer o progresso, os turistas, o trânsito e os assaltos. Antes de Campos ser Campos. Quando subir a serra era uma aventura diferente, que começava de madrugada, tendo que lidar com as curvas e os enjôos, depois pegar a estrada de terra (na época, quase 20 km de terra), onde pelo menos uma vez passamos a noite atolados, dentro um fusca, para ser resgatado no dia seguinte. Onde chegar e sair durante o verão era uma viagem dentro da viagem, quase sempre se atolava. Devia ter uns 10 anos.</p>
<p>De repente, estava eu sozinho descendo a serra pelo outro lado. Era uma sensação estranha: centenas de milhares de pessoas enfileiradas a 10 km por hora, enquanto eu tinha o mesmo destino e descia (praticamente) sozinho. Por alguns momentos, pensei que havia me enganado. A estrada mal tinha sinalização; será que estava mesmo no caminho certo? Será que a estrada acabaria em um precipício?</p>
<p>Mas não. Aos poucos, vi que estava certo. Fui percebendo que, naquele momento, um tanto ironicamente, o velho acesso quase desativado era a melhor alternativa, como nos velhos tempos – foi o dia em que o tempo voltou, e com ele todas aquelas memórias quase esquecidas.</p>
<p>Além do tráfego livre, a estradinha cortava as montanhas e dava a sensação de fazer parte da cena, tal a proximidade com a mata, com o barranco, com o precipício; as auto-estradas se sobrepõem ao entorno, não há comunhão com a realidade, como se estivéssemos em um vídeo-game.</p>
<p>Decidi que ir por Minas Gerais seria um pouco demais; a viagem já seria mais longa, mesmo considerando o trânsito do outro lado. Optei por passar por Monteiro Lobato e chegar a São José, pegando a Dutra lá na frente.</p>
<p>Imaginei-me preso no tráfego interminável lá do outro lado e a sensação de alívio e independência ficou ainda maior. Optei por desviar 4 km e achar algum lugar para almoçar na pacata Santo Antônio do Pinhal, pela qual passei centenas de vezes, indo para Campos, e nunca havia entrado (vergonha). Topei com um bistrozinho simpático chamado Canto da Gula, onde comi uma truta com molho de manga e pimenta rosa. Do outro lado, pensei, estaria disputando um sanduíche quase à tapa, com centenas de turistas, no lotado Leite na Pista. Ufa&#8230;</p>
<p>Após deixar Santo Antônio (que estava em festa, comemorando o dia do seu padroeiro), dou de cara com a Pedra do Baú, que é uma em várias, pois dependendo do ângulo em que se está a visão é completamente diferente, nem parece que se trata da mesma montanha. Parei e tirei uma foto da pedra “de costas”; não me lembro de ter parado para fotografar qualquer coisa indo pela estrada regular.</p>
<div id="attachment_663" class="wp-caption alignnone" style="width: 510px"><img class="size-full wp-image-663" title="IMG_4023_3648x2736" src="http://marcelopcarvalho.files.wordpress.com/2009/06/img_4023_3648x2736.jpg?w=500&#038;h=375" alt="A vista da Pedra do Baú pela estrada velha" width="500" height="375" /><p class="wp-caption-text">A vista da Pedra do Baú pela estrada velha</p></div>
<p>À medida que vamos descendo a serra, a viagem vai ficando ainda mais interessante. Vemos ao largo da estradinha personagens que devem ser iguais àquelas que inspiraram Monteiro Lobato a caracterizar o Jeca Tatú no começo do século XX. Passa-se por fazendinhas esquecidas, por vilarejos perdidos, por paisagens abandonadas pelo progresso que optou por subir pelo outro lado da serra (e como o outro lado é mais feio, como incomoda o crescimento desordenado de Tremembé e adjacências, ainda mais evidente ao se comparar com essas “novas” paisagens). Aliás, sempre me surpreende como ficou para trás a área rural do Vale do Paraíba, entre Rio, Minas e São Paulo, uma das primeiras colonizadas no Brasil, mas isso é assunto para outro post.</p>
<p> Aos poucos, aquilo que seria um stress inevitável, embutido no pacote feriado-de-corpus-christi-em-Campos-do-Jordão, começou a se transformar em um lazer extra, um bônus inesperado e muito bem vindo.  Curioso: foi preciso um imprevisto desagradável para me fazer mudar de rumo. Quantas coisas, pensei, não fazemos por conforto, comodidade ou por falta de questionamento e preguiça mental, e com isso quantas coisas que acrescentam deixamos de aproveitar, deixando a vida menos intensa e surpreendente do que poderia ser. Quantas regras e procedimentos que deveriam ser quebrados de vez em quando, quantos hábitos poderiam ser alterados com ganhos evidentes, e que não alteramos porque, porque&#8230;não sei ao certo; por haver riscos nas mudanças, talvez? E como muitas vezes o estímulo para a mudança vem de fora.</p>
<p>Refleti também sobre o fato de milhares de viajantes terem optado por seguir pelo caminho convencional. Claro que muitos não conhecem a alternativa antiga de se descer a serra, mas até o fato dela ser amplamente desconhecida indica que há algo mais a ser explicado do que seu simples desconhecimento. Talvez o paulistano esteja acostumado ao trânsito como um beduíno se acostuma com a secura do deserto e o esquimó com o frio. Já faz parte de seu <em>way of life</em> a ponto de ser algo automático, inócuo. É chato, mas é a vida, fazer o que.</p>
<p>Mas acho que há também a falta de questionamento. A maioria das pessoas prefere fazer o que a maioria das pessoas faz. É mais fácil seguir a multidão; quem inova e erra, vai errar sozinho. O fracasso solitário é muito mais doído: você, de certa forma, é o responsável pela sua situação. Já o erro coletivo acaba diluído a ponto de quase inexistir. Estão todos presos no trânsito, portanto a culpa não é de ninguém individualmente; joga-se na multidão o peso da responsabilidade.  Ir contra o fluxo e ter a vida nas mãos, claro, traz riscos, mas a experiência desse domingo me mostrou mais uma vez que o mundo pode reservar boas surpresas para quem tem o defeito de não se conformar.</p>
<p>****</p>
<p>Um lugar especial, perdido nas montanhas da Mantiqueira, entre São Bento do Sapucaí, SP, e Piranguçú, MG (se você não sabe onde é Piranguçú, uma referência: fica perto de Piranguinho, onde se come o melhor pé-de-moleque do Brasil&#8230;rs). Além ainda de onde ficamos. É a pequena represa São Bernardo, que pertence a poucos e é preservada pelo acesso difícil e pela distância de tudo. Parece uma miragem. Abaixo, você vai entender o que estou falando.</p>
<div id="attachment_664" class="wp-caption alignnone" style="width: 510px"><img class="size-full wp-image-664" title="IMG_3967_3648x2736" src="http://marcelopcarvalho.files.wordpress.com/2009/06/img_3967_3648x2736.jpg?w=500&#038;h=375" alt="A represa de São Bernardo" width="500" height="375" /><p class="wp-caption-text">A represa de São Bernardo</p></div>
<div id="attachment_665" class="wp-caption alignnone" style="width: 510px"><img class="size-full wp-image-665" title="IMG_4013_3648x2736" src="http://marcelopcarvalho.files.wordpress.com/2009/06/img_4013_3648x2736.jpg?w=500&#038;h=375" alt="Igrejinha perdida no meio do caminho, perto da represa" width="500" height="375" /><p class="wp-caption-text">Igrejinha perdida no meio do caminho, perto da represa</p></div>
<p>***</p>
<p>Este é o post de número 100 do blog, iniciado no final do ano passado. Cito aqui um trecho do <a href="http://blog.oquederevier.com/2008/11/30/“nothing-ventured-nothing-gained”/">primeiro post</a>, &#8220;Nothing Ventured, Nothing Gained&#8221;: &#8220;Como escreveu o Elliot (T.S. Elliot, poeta norte-americano), “escrever é fugir da emoção”. No filme sobre o Vinicius, o Ferreira Gullar citou essa frase e foi além: quem escreve, quer se livrar da emoção, jogar tudo isso para quem lê. Portanto, esse espaço também é seu, queira ou não&#8221;. Obrigado!!</p>
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		<title>História de um pescador</title>
		<link>http://blog.oquederevier.com/2009/05/19/historia-de-um-pescador/</link>
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		<pubDate>Tue, 19 May 2009 17:11:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>marcelopcarvalho</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[fotografia]]></category>
		<category><![CDATA[pescaria]]></category>

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		<description><![CDATA[(Sábado cedo, saí para andar nas margens do rio com a minha câmera, sem saber o que iria encontrar. De repente, uma imagem, uma cena e, pronto: uma história inteira pra contar). Na barranca de um rio, um pescador solitário contempla o mundo refletido nas águas. Seu nome? Qualquer um. O rio? Um rio qualquer [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=blog.oquederevier.com&blog=5679249&post=604&subd=marcelopcarvalho&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>(Sábado cedo, saí para andar nas margens do rio com a minha câmera, sem saber o que iria encontrar. De repente, uma imagem, uma cena e, pronto: uma história inteira pra contar).</em></p>
<p>Na barranca de um rio, um pescador solitário contempla o mundo refletido nas águas. Seu nome? Qualquer um. O rio? Um rio qualquer no interior do Brasil. Encolhido, escondido, aceita com humildade a sua sina e se apequena diante da natureza que passa a seus pés. Em que pensa?</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-605" title="IMG_3218_3648x2736" src="http://marcelopcarvalho.files.wordpress.com/2009/05/img_3218_3648x2736.jpg?w=500&#038;h=375" alt="IMG_3218_3648x2736" width="500" height="375" /></p>
<p>Vida sofrida, sabedoria inculta acumulada ao longo dos anos. Não pensa em nada, respeita o rio e o tempo das coisas: o seu tempo. Meticulosamente, com o cuidado de um iniciante, coloca a isca no anzol, como já havia feito  inúmeras vezes.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-606" title="IMG_3204_3648x2736" src="http://marcelopcarvalho.files.wordpress.com/2009/05/img_3204_3648x2736.jpg?w=500&#038;h=375" alt="IMG_3204_3648x2736" width="500" height="375" /></p>
<p>Prepara, então, o lançamento. As mãos ressequidas pelo trabalho árduo e pela idade imemorial que carrega têm ainda a habilidade de antes. A pescaria, afinal, era uma dádiva; talvez a única que sobrara daquela trajetória anônima e, ao mesmo tempo, tão comum, tão exposta.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-607" title="IMG_3205_3648x2736" src="http://marcelopcarvalho.files.wordpress.com/2009/05/img_3205_3648x2736.jpg?w=500&#038;h=375" alt="IMG_3205_3648x2736" width="500" height="375" /></p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-608" title="IMG_3207_3648x2736" src="http://marcelopcarvalho.files.wordpress.com/2009/05/img_3207_3648x2736.jpg?w=500&#038;h=375" alt="IMG_3207_3648x2736" width="500" height="375" /></p>
<p>Acendeu um cigarro, parte do ritual que desenvolvera desde pequeno ali, na beira daquele mesmo rio, onde passara sua existência cheia e solitária. Que diferença fazia? Agora, a espera pelo peixe. A paciência aprendida na vida, na marra, pela ausência de alternativa. Sabia há tempos que a pescaria das manhãs de todos os dias ensinava-lhe a resignação para suportar todo o resto; precisava dela.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-609" title="IMG_3219_3648x2736" src="http://marcelopcarvalho.files.wordpress.com/2009/05/img_3219_3648x2736.jpg?w=500&#038;h=375" alt="IMG_3219_3648x2736" width="500" height="375" /></p>
<p>As águas turvas e cremosas, em movimento, permitindo fantasias. Ele não se importa, já havia visto aquela cena tantas vezes. Concentrado, aproveita cada momento, esmera-se em cada detalhe como se fosse a última vez. Como se fosse a única vez.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-610" title="IMG_3220_3648x2736" src="http://marcelopcarvalho.files.wordpress.com/2009/05/img_3220_3648x2736.jpg?w=500&#038;h=375" alt="IMG_3220_3648x2736" width="500" height="375" /></p>
<p>De repente, dá-se conta. Via sua vida ali, refletida nas águas do rio que lhe era íntimo e que, ao mesmo tempo, nunca era o mesmo. Olhando as nuvens e o azul do céu espelhados na água, vislumbrou o futuro de uma maneira tão  próxima que reconciliou-se com si mesmo, sentindo um conforto que nunca havia sentido. </p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-611" title="IMG_3217_3648x2736" src="http://marcelopcarvalho.files.wordpress.com/2009/05/img_3217_3648x2736.jpg?w=500&#038;h=375" alt="IMG_3217_3648x2736" width="500" height="375" /></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/marcelopcarvalho.wordpress.com/604/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/marcelopcarvalho.wordpress.com/604/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/marcelopcarvalho.wordpress.com/604/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/marcelopcarvalho.wordpress.com/604/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/marcelopcarvalho.wordpress.com/604/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/marcelopcarvalho.wordpress.com/604/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/marcelopcarvalho.wordpress.com/604/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/marcelopcarvalho.wordpress.com/604/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/marcelopcarvalho.wordpress.com/604/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/marcelopcarvalho.wordpress.com/604/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=blog.oquederevier.com&blog=5679249&post=604&subd=marcelopcarvalho&ref=&feed=1" />]]></content:encoded>
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		<title>Sobre patos e outras coisas</title>
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		<pubDate>Fri, 01 May 2009 01:08:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>marcelopcarvalho</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Turismo]]></category>
		<category><![CDATA[Viagens]]></category>
		<category><![CDATA[Vinhos]]></category>
		<category><![CDATA[Espanha]]></category>
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		<category><![CDATA[Marqués de Riscal]]></category>
		<category><![CDATA[Patagônia]]></category>
		<category><![CDATA[Westin Palace]]></category>

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		<description><![CDATA[Em Madri, fiquei no Palace, um dos dois hotéis (o outro foi o Ritz) construídos no início do século XX porque o rei Afonso XIII ficou envergonhado ao constatar que a cidade não dispunha de hotéis luxuosos para os convidados de seu casamento. Na noite em que cheguei, a atmosfera me contagiou e resolvi comemorar [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=blog.oquederevier.com&blog=5679249&post=568&subd=marcelopcarvalho&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Em Madri, fiquei no Palace, um dos dois hotéis (o outro foi o Ritz) construídos no início do século XX porque o rei Afonso XIII ficou envergonhado ao constatar que a cidade não dispunha de hotéis luxuosos para os convidados de seu casamento.</p>
<p>Na noite em que cheguei, a atmosfera me contagiou e resolvi comemorar a contento. Tarde da noite, meia noite ou mais, resolvi jantar no hotel, embalado por um Herdeiros do Marqués de Riscal Elciego Álava 2003 Reserva, um vinho e tanto.</p>
<p>Eis que, no cardápio, um maigret de pato. Não resisti e pedi o prato, feito com esmero, com mel e framboesas. Sempre que posso, peço pato. Gosto da iguaria e, na verdade, quero desafiar meu pato preferido, o preparado pelo Patagônia, a 30 minutos de casa, na improvável Águas de São Pedro. Até agora, não achei nenhum superior ao pato com molho de laranja e cuscuz marroquino preparado por esse simples restaurante que, há anos, freqüento, junto com outros poucos privilegiados.</p>
<p>O pato do refinado Palace estava ótimo mas, como já esperava, bastante inferior ao do singelo Patagônia do interior de São Paulo, mesmo turbinado pelo grande vinho. Fui dormir feliz, menos pela bela refeição e mais pela sensação de vitória secreta: afinal, poucos têm acesso ao que eu tinha, na pacata Águas de São Pedro, no restaurante do chef argentino (bem, nada é perfeito&#8230;).</p>
<p>Lembrei-me, porém, que havia meses que não ia ao meu restaurante favorito. Uma falha grave, pois me sentia de certa forma responsável por manter vivo aquele lugar pertencente a tão poucos e que, receava, poderia não durar para sempre.</p>
<p>De volta ao Brasil, recebo, de passagem, a notícia. “Sabe o Patagônia? Fechou. Até a casa está à venda”. Choque. É como receber posteriormente a notícia da morte de alguém que você gosta muito, mas que por razões inexplicáveis, não vê há tempos. Fica a sensação da perda e da culpa. De que você poderia ter feito alguma coisa e não fez.</p>
<p>Aquele lugar, em que nunca consegui pedir nada além do pato, apesar de, por diversas vezes, ter entrado com o firme propósito de pedir alguma outra coisa do cardápio (mas não conseguia). Aquele lugar, em que, no meu aniversário, ganhei um bolo com direito a parabéns e tudo mais. Aquele lugar, que carrega tantas memórias boas e nenhuma ruim, coisa rara em um restaurante freqüentado tantas e tantas vezes. Aquele lugar, fechado para sempre. Até a casa à venda.</p>
<p>Pensando bem, até que foi bom. De nada adianta ficar ouvindo as vozes do que ficou para trás. E o Patagônia com seu pato estupendo era cheio dessas vozes que já se foram, mas que teimam em ecoar. Melhor assim. Outros patos certamente virão. Talvez ainda melhores do que aquele.</p>
<div id="attachment_569" class="wp-caption alignnone" style="width: 510px"><img class="size-full wp-image-569" title="img_2212_3648x2736" src="http://marcelopcarvalho.files.wordpress.com/2009/05/img_2212_3648x2736.jpg?w=500&#038;h=375" alt="O Palace, em Madri, na frente do Museu do Prado" width="500" height="375" /><p class="wp-caption-text">O Palace, em Madri, no Paseo del Prado, de frente para a Fonte de Netuno</p></div>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/marcelopcarvalho.wordpress.com/568/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/marcelopcarvalho.wordpress.com/568/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/marcelopcarvalho.wordpress.com/568/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/marcelopcarvalho.wordpress.com/568/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/marcelopcarvalho.wordpress.com/568/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/marcelopcarvalho.wordpress.com/568/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/marcelopcarvalho.wordpress.com/568/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/marcelopcarvalho.wordpress.com/568/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/marcelopcarvalho.wordpress.com/568/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/marcelopcarvalho.wordpress.com/568/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=blog.oquederevier.com&blog=5679249&post=568&subd=marcelopcarvalho&ref=&feed=1" />]]></content:encoded>
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